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Liberalismo na teoria, sufoco na prática

Por que o discurso da autonomia individual fracassa diante da realidade econômica

Ilustração crítica sobre liberalismo econômico, empreendedor sufocado por impostos, burocracia e desigualdade social no Brasil


O liberalismo econômico costuma ser vendido como a ideologia da liberdade, do mérito e da eficiência. Seus defensores afirmam que, com menos Estado e mais mercado, todos teriam mais oportunidades.

Mas quando esse discurso é confrontado com a realidade do pequeno empreendedor — especialmente em países como o Brasil — o que aparece não é liberdade, e sim transferência de risco, culpa e custo para quem está na base.


A farsa da “menor carga tributária”

O liberalismo promete menos impostos, mas evita explicar como o Estado continuará funcionando sem arrecadação e, principalmente, quem continuará pagando a conta.

Na prática, o Estado não reduz sua necessidade de receita. Ele apenas redefine quem será cobrado. E quem acaba sendo cobrado são aqueles que não têm poder político, não têm lobby e não conseguem negociar benefícios.

O pequeno empreendedor paga impostos sobre faturamento, taxas fixas mesmo quando fatura pouco, tributos cumulativos e encargos trabalhistas rígidos. Já grandes empresas negociam parcelamentos bilionários, recebem renúncias fiscais e judicializam dívidas por décadas.

Isso não é redução de impostos. É redistribuição do peso tributário para baixo.


Autonomia e responsabilidade individual como discurso de culpa

Outro pilar do liberalismo é a ideia de que o sucesso ou fracasso depende apenas do esforço individual. Esse discurso ignora completamente o contexto econômico real.

O pequeno empresário brasileiro enfrenta energia cara, aluguel inflacionado, insumos dolarizados, juros abusivos, burocracia excessiva e legislação instável. Nada disso é resultado de falta de mérito ou má gestão.

Mesmo assim, quando o negócio quebra, a narrativa dominante afirma que faltou planejamento ou competência. O sistema falha, mas a culpa é jogada no indivíduo.

A chamada “autonomia” vira, na prática, abandono institucional.


Liberalismo seletivo: mercado livre para uns, risco total para outros

O liberalismo não é aplicado de forma universal. Ele funciona de maneira seletiva.

Quando grandes empresas enfrentam crises, recebem crédito subsidiado, renegociam dívidas fiscais e são consideradas estratégicas demais para quebrar.

Quando pequenos negócios enfrentam crises, recebem discursos motivacionais e são orientados a “se reinventar”.

Isso revela um fato incômodo: o liberalismo real protege o grande capital e individualiza o fracasso do pequeno.


A empresa como fenômeno social: o que a visão social entende

A visão social parte de um princípio simples: nenhuma empresa existe fora da sociedade.

Todo negócio depende de infraestrutura pública, trabalhadores formados, estabilidade econômica, crédito regulado e poder de consumo da população. Nada disso surge espontaneamente do mercado.

Quando o Estado investe, subsidia ou incentiva setores produtivos, ele não está “atrapalhando” o mercado, mas criando as condições para que ele exista.


Incentivos fiscais: o problema não é existir, é para quem vão

Incentivos fiscais não são um erro em si. O problema está em quem os recebe e sob quais condições.

Grande parte dos incentivos vai para grandes grupos econômicos, sem exigência clara de geração de empregos, reinvestimento local ou retorno social proporcional.

O pequeno empreendedor raramente tem acesso a esses mecanismos, seja por falta de informação, estrutura ou influência política.

O Estado incentiva, mas não incentiva de forma democrática.


A origem real da alta carga tributária

Corrupção estrutural

A corrupção não é apenas individual, mas estrutural. Contratos superfaturados, obras inacabadas e desvios recorrentes fazem com que o Estado arrecade mais para cobrir perdas.

Quem paga essa conta é quem não pode esconder renda nem sonegar: o pequeno empresário formalizado.

Privilégios do topo do Estado

Salários elevados, auxílios, penduricalhos e aposentadorias especiais consomem grande parte do orçamento público.

Esses privilégios raramente entram no debate liberal sobre redução do Estado. Falar em menos impostos sem tocar nisso é retórica vazia.

Estrutura tributária injusta

O sistema tributário brasileiro penaliza consumo, faturamento e folha de pagamento, enquanto tributa pouco grandes fortunas, patrimônio e lucros distribuídos.

Isso faz com que quem ganha menos pague proporcionalmente mais e quem concentra capital seja menos afetado.


O paradoxo final do liberalismo aplicado

O liberalismo fala em mérito sem igualdade de condições, liberdade em um ambiente economicamente sufocante e Estado mínimo mantendo privilégios máximos.

Na prática, funciona mais como uma ideologia de justificação do que como um projeto real de desenvolvimento.


Conclusão

Empreender não é um ato isolado. É um fenômeno social, econômico e político.

Enquanto a corrupção drenar recursos, os privilégios do topo permanecerem intactos e a estrutura tributária penalizar quem produz pouco capital, falar em autonomia individual será apenas outra forma elegante de dizer:

“Se você quebrar, o problema é seu.”

A visão social, com todas as suas limitações, ao menos reconhece algo essencial: desenvolvimento não é milagre individual, é construção coletiva.

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